Cave participa do Rotas SP-Arte com o projeto “Zona de suspensão”, que apresenta nove artistas com poéticas contemporâneas.

A Cave participa do Rotas SP-Arte com “Zona de Suspensão”, projeto curatorial que sintetiza uma das principais características de sua atuação: o acompanhamento atento de pesquisas artísticas autorais e a construção de um programa comprometido com a produção contemporânea brasileira. A galeria apresenta um recorte que evidencia seu olhar curatorial e sua aposta em artistas cujas investigações expandem os limites da linguagem, da matéria e da imaginação.

Desde sua criação, a Cave tem consolidado um modelo de atuação que privilegia processos de pesquisa de longo prazo, estabelecendo relações próximas com seus artistas e desenvolvendo projetos que ultrapassam a lógica expositiva. Sua programação parte da convicção de que a arte é um campo de pensamento e experimentação, capaz de provocar novas formas de perceber o mundo e de tensionar narrativas consolidadas sobre identidade, território, memória e natureza.

Charles Lessa, 2026

Com curadoria de Lucas Dilacerda, membro da AICA – International Association of Art Critics, “Zona de Suspensão” reúne Jane Batista – vendedora do Prêmio PIPA 2026,  Bárbara Banida – artista do 39º Panorama da Arte Brasileira, Rita Lessa, Navegante Tremembé, Gi Monteiro, Sérgi Gurgel, Charles Lessa, Cadeh Juaçaba e Letícia Façanha. Embora partam de linguagens e trajetórias distintas, os artistas compartilham um interesse comum por suspender e deslocar categorias que historicamente organizaram o pensamento moderno e colonial. Suas obras suspendem fronteiras entre sujeito e objeto, natureza e cultura, passado e presente, realidade e imaginação, revelando modos de existência que escapam às classificações tradicionais.

Nesse percurso, a fotografia de Jane Batista reposiciona imaginários sobre a mulher negra; as esculturas de Bárbara Banida propõem organismos em permanente regeneração; Rita Lessa constrói universos híbridos entre pintura e escultura; Navegante Tremembé utiliza pigmentos naturais milenares indígenas para registrar espécies ameaçadas; Gi Monteiro traduz os ciclos da natureza em composições abstratas; Sérgi Gurgel restitui memória e afeto a objetos cotidianos; Charles Lessa reinventa o sertão por meio de uma narrativa surreal e anarco-regional; Cadeh Juaçaba tensiona os símbolos nacionais; e Letícia Façanha transforma paisagens ameaçadas em atmosferas de resistência.

Charles Lessa, 2026

Ao apresentar esse conjunto no Rotas SP-Arte, a Cave reafirma seu compromisso com uma curadoria que valoriza a singularidade das pesquisas de seus artistas e promove diálogos entre diferentes práticas, territórios e modos de pensar a arte contemporânea.  A participação da galeria no evento amplia a circulação dessa produção para além do Nordeste e evidencia a potência de uma cena que vem conquistando reconhecimento nacional por sua consistência conceitual e inventividade formal. “Zona de Suspensão” traduz a identidade curatorial da Cave: um espaço dedicado a artistas que investigam o presente por meio da experimentação, da liberdade poética e da construção de novos imaginários.

Leia abaixo o texto curatorial de Lucas Dilacerda:

Suspender tudo aquilo que nos separa da vida

O projeto “Zona de suspensão” apresenta obras que suspendem categorias antropocêntricas (sujeito e objeto, cultura e natureza etc.) e materializam uma vida pulsante anterior à linguagem. 

Jane Batista suspende o olhar. Seus fotografias realizam um giro decolonial na história da arte e criam outros imaginários para as mulheres negras, através de autorretratos feitos com materialidades colhidas em seu território.

Bárbara Banida suspende a anatomia. Suas esculturas recusam uma forma estável e performam um movimento de crescimento através de seres em estado de regeneração do planeta.

Rita Lessa suspende o “eu”. Suas pinturas e esculturas nascem de um espanto primordial com o mundo e figuram criaturas híbridas e fantasmagóricas que se manifestam de um inconsciente medieval, póvera e animalesco.

Navegante Tremembé suspende o tempo. Suas pinturas são feitas de “toá”: um pigmento natural remanescente de camadas geológicas formadas há bilhões de anos na Terra, com a qual a artista pinta árvores e pássaros em risco de extinção.

Gi Monteiro suspende a representação. Suas cerâmicas pictóricas e seus desenhos recortados (intitulados de “Nevoeiros”) condensam em imagens abstratas a força vital das nuvens, da chuva e da fertilidade da terra.

Sérgio Gurgel suspende a utilidade. Espelhos, cadeiras, bandejas e objetos abandonam sua função para recuperar uma vida silenciosa. A obra da artista recusa a lógica da produtividade e do descarte e lembra que toda matéria guarda memória, afeto e imaginação.

Charles Lessa suspende a lógica racional. Suas pinturas retratam o sertão do Cariri de maneira surrealista na qual religiosidade, cultura popular, humor e fantasia se entrezruzam em uma ficção punk-anarco-regional.

Cadeh Juaçaba suspende o símbolo. Recortes negativos de bandeiras, emblemas e signos políticos deixam de afirmar a identidade nacional e passam a refletir um Brasil em disputa de imaginários sociais. 

Letícia Façanha suspende a paisagem. Suas pinturas enevoadas criticam o desaparecimento de paisagens naturais provocado por interesses econômicos do “progresso” e da especulação imobiliária. Suas imagens criam atmosferas de cor, onde natureza, ruína e memória aparecem prestes a desaparecer.

“Zona de suspensão” propõe um exercício de desobediência do olhar. Cada obra interrompe uma categoria que organizou a história ocidental: sujeito e objeto, natureza e cultura, humano e animal, passado e presente, centro e margem. Essas separações nunca foram apenas conceitos. Elas sustentaram projetos de colonização, exploração da natureza, hierarquização dos corpos e apagamento de outros modos de existir. Os artistas reunidos nesta exposição produzem imagens que recusam obedecer às formas de organização do mundo. Em vez de confirmar certezas, lançam provocações. Em vez de representar a realidade, desmontam os regimes que decidiram o que pode ser visto, lembrado e imaginado.

Portanto, “Zona de suspensão” é o intervalo em que uma ordem perde sua autoridade antes que outra ocupe o seu lugar. É nesse momento de instabilidade que a arte encontra sua força política. Porque nenhum sistema teme imagens que reproduzem o mundo. O que ameaça qualquer forma de poder são imagens capazes de retirar o mundo do lugar.

Lucas Dilacerda
Curadoria, AICA – International Association of Art Critics

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